DE POLCENIGO AO BRASIL

 “Diz Brasil e pensa logo em carnaval, no samba, no Pão de Açúcar no Rio de Janeiro, no futebol. Mas um italiano deveria acrescentar a imigração. Porque foi mais de 1 milhão de italianos que se transferiu, sobretudo no último quarto de 1800 e no início de 1900, para o vasto país sul-americano (quase 30 vezes maior que a Itália), dando um relevante tributo humano à sua formação e ao crescimento econômico e cultural”, diz Alessandro Fadelli.

E continua: “entre os tantos italianos que imigraram para o Brasil, uma boa fatia era constituída de oriundi venezianos e do Vêneto e de Friuli-Venezia Giulia, e entre os de Friuli havia muitos polcenigheses.

A partir de 1875, no Brasil, foi progressivamente abolida, ao menos na carta, a escravatura. Faltava mão-de-obra para colonizar um território imenso e por largo desabitado e sem culturas agrícolas.

Chegavam da Europa milhões de imigrantes, da Polônia à França, da Suíça à Alemanha, da Espanha, etc...

Homens que trabalhavam por conta das Companhias Navais sub-agenciavam ou intermediavam a população do Vêneto e de Friuli, propagando a transferência para o distante país sul-americano como a panacéia resoluta para os tantos males das misérias dos camponeses italianos. Os habitantes das capitais e cidades maiores tinham seus empregos ou não precisavam fugir da miséria.

Esses intermediários da imigração insinuavam nos discurso para a população, em particular para aqueles homens das estalagens, exasperando a já crítica situação econômica e social do momento e alentando para as promessas de terras fertilíssimas grátis ou quase grátis, aos quais acrescentavam detalhes sobre a viagem, sobre o ambiente, o clima que não correspondia exatamente à verdade.

Em 1877, somente 02 intermediários da imigração, recrutaram 200 homens na área de Pordenone, mas foram impedidos de imigrarem. Neste mesmo ano, um destes agentes clandestinos da imigração foi à Polcenigo, mas foi denunciado às autoridades jurídicas.

Muitos camponeses cansados da miséria, da opressão dos patrões e sobre tudo das taxas sempre mais ásperas impostas no novo estado italiano para pagar as despesas de guerra e bloqueio assustador do déficit da balança criado. Em particular, gravíssimos danos econômicos e também psicológicos tomaram conta, sobretudo os pobres camponeses, tornando mais custosa /cara também a polenta, a única comida disponível. Taxaram o sal, encarecendo a produção de salames e ensacados caseiros e taxas sobre tabacos, uma das poucas satisfações.

Era uma sucessão de crises econômicas no Nordeste (Friuli e Vêneto), principalmente após a metade do século (1800-1900), de uma desastrosa epidemia que dizimou as criações de bicho da seda, a quase destruição dos vinhedos, sem contar o ano desfavorável para os cereais, base dos alimentos e do comércio.

Em poucos anos aumentava assim a miséria das camadas mais baixas da população, foi-se criando ao mesmo tempo um clima de desânimo e de raiva crescente, que desafogou em algumas revoltas dos camponeses, mas que mais transformou na fuga da Itália “madrasta”.

A propaganda da imigração para o Brasil encontrou pessoas prontas para deixar o pouco que tinham, e para não perderem mais, embarcaram para uma nova e melhor vida (ao menos assim acreditavam e esperavam – Nota do autor).

Como se notou rapidamente da parte dos mais atentos observadores, não partia os mais pobres, mas aqueles que tinham qualquer coisa, os pequenos ou pequeníssimos possuidores, cansados das altas taxas e temeroso do futuro. Venderam a casa e os poucos terrenos que tinham, e juntavam uma soma de reserva/provisão para os primeiros períodos no Brasil, e se pagavam os custos da viagem. Os mais pobres não partiram simplesmente porque não tinham nem menos o dinheiro para pagar-lhes o trajeto.

Em julho/1877, primeiro com 39 pessoas, depois mais maciçamente, em grandes grupos familiares, centenas de polcenigheses embarcaram nos navios a vapor que partiam de costume, de Gênova diretamente atrás do longínquo país sul-americano.

  A VIAGEM

A má condição higiênica sanitária, a alimentação escassa ou raríssima e o aglomerado incrível, acabaram por denominar os vapores como “Navios da Desesperança”, que descarregavam milhares de desgraças sobre a costa italiana. Não poucos passageiros, morriam durante o percurso devido à má nutrição, de moléstias crônicas ou congênitas, e eram jogados ao mar para diminuir os riscos sanitários. A bordo, as epidemias se propagavam de maneira rápida e destruidora, acometendo numerosas vítimas.

O percurso de vapor da Itália ao Brasil levava em média 01 mês (mas às vezes um pouco mais). Para muitos o sonho do Eldorado se esvaia rápido: era um país rico de potencialidades, quase todo ainda para desbravar e desfrutar. Não tinha terra pronta para arar e semear como aquela que tinha deixado para trás: grandes matas para desmatar, terrenos nunca cultivados para romper, água para levar aonde não chegava naturalmente. E assim a trabalhar por dias e meses e anos com ancinho, machado, enxadas, arados.

Nota 1: Sobre a vinda do arado e da imigração americana e eslava para o Brasil veja mais em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Imigra%C3%A7%C3%A3o_norte-americana_no_Brasil

http://pt.wikipedia.org/wiki/Imigra%C3%A7%C3%A3o_no_Brasil

Nota 2: Muitos dos imigrantes europeus não tinham conhecimento das atividades agrícolas, tinham outras atividades em seus países de origem, como: operário de fábricas, sapateiros, carpinteiros, alfaiates, pedreiros, ferreiros, vidraceiros, soldados, músicos ambulantes, jornaleiros, confeiteiros, pintores, serradores, tanoeiros (aquele que fabrica ou conserta pipas, barris, tonéis).

Num clima diverso da Itália e nem sempre salubre, em certos lugares quentes e úmidos, e depois animais que incomodavam ou perigosos, cobras, feras, indígenas hostis, moléstias antigas e novas (tinha a febre amarela e uma espécie de Pelagra brasileira da verminose, o amarelão), auxílio médico e farmacológico raros, longes ou caros, resumindo, riscos de qualquer gênero.

Por exemplo, dos 476 italianos (dentre eles vários polcenigheses) que embarcavam em 25/outubro/1877 no Navio CLEMENTINA e se deslocaram para o Estado do Espírito Santo, em Ibiraçu (Santa Cruz), núcleo fundado naquele ano, 111 imigrantes morreram de febre amarela.

 Saiba mais:
http://www.ape.es.gov.br/
http://www.estacaocapixaba.com.br/textos/imigracao/busatto/...

Os meios de comunicação eram praticamente inexistentes e as várias posses de terra eram distantes uma da outra, muitas vezes os imigrantes viviam em casas isoladas que distanciavam quilômetros e quilômetros da habitação mais próxima. Muitas vilas foram batizadas com um pouco de nostalgia: Nova Udine, Nova Venezia, Garibaldi.

Os italianos preferiram sediar-se no sul do país, nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, aqueles com clima mais temperado, similar ao local de onde partiram. Mas, muitos imigrantes foram para os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, onde foram muitos polcenigheses.

Nas primeiras cartas que chegaram à Itália contavam da falta de quase tudo, de dificuldades de todo tipo, de que alguns que tinham morrido e que fizeram cessar o entusiasmo dos polcenigheses. Mas foi uma pausa momentânea. Os polcenigheses além do Brasil, também foram para a Argentina.

Em 1884, alguns polcenigheses viajavam para visitar seus parentes ou amigos no exterior, muitos dos quais estavam bem adaptados ao Brasil, precisamente na localidade de Castelo (Espírito Santo – núcleo fundado em 1880), Bonavente, Isabela e São Paulo.

A imigração para a América do Sul continuou até os últimos anos de 1800, quando se interrompe quase completamente por várias razões, sobretudo políticas e econômicas, pouco depois de 20 anos de seu início. Impossível listar com segurança todos os compatriotas italianos que imigraram para o Brasil nesse curto período, pela deficiência de documentação existente. Bem provável que quase cada família polcenighese deu a sua contribuição à imigração transoceânica, como os: Cosmo, Fantin, Del Puppo, Modolo, Polese, Della Valentina, Tizianel, Bosser, Dorigo, Zanchet, Scarpat, Canal. Estas 02 últimas famílias imigraram quase em massa, deixando poucos representantes em San Giovanni e em Coltura (localidades de Polcenigo/PN).

Nota 3: No Vapor “La France”, que aqui chegou em 03/04/1883 (no Porto do Rio de Janeiro e depois, em 05/04/1883 no Porto de Santos-SP), vieram muitas famílias de polcenigheses, além da família de Gio Maria Tizianel, sua mulher Giovanna Zanolin e seus seis filhos, como os de sobrenomes Pusiol, Bravin, De Riz, Puppin. (Vide relação original em do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro em “Vapores”).

 Outros vapores com polcenigheses:

- 1886 - Vapor Mayrink: Domenico Canal, sua mulher Ângela Scarpat e sua filha Lúcia;
- 1877 - Vapor Columbia: Matteo Fantin, sua mulher Regina Modolo e filhos: Teresa, Ângela, Valentino e Angelo-Giovanni.
- 1887/abril - Vapor Columbia: Giuseppe Tizianel, sua consorte Anna Scarpat e os filhos Antonio e Anna Maria.
Pietro Bravin, sua mulher Caterina Bressan e filha Teresa.
- 15/agosto/1887 - Michele Scarpat, agricultor de 47 anos, sua mulher Luigia Zanolin e filhos: Ângelo, Maria e Luigi.
- Celestino Scarpat, 37 anos, sua consorte Caterina Fantin e 03 filhos: Giuseppe, Maria e Stefano.
- Antonio Modolo, sua mulher Pasqua Bravin, 01 filho e 01 irmão.
- 1895 - Vapor Las Palmas - Vittorio Fantin, sua mulher Catterina Sanna e a enteada Battistina Moritu
- 1888, 1889, 1893 -Bravin, Cosmo.
- Final de 1898: -Domenico Bravin, sua mulher Luigia e filhos: Lino, Vittorio e Maddalena.

A maioria desses imigrantes foi para o estado do Espírito Santo. Pouco se tem notícias (em Polcenigo) dos que foram para os outros estados.

Nota – jan/09 – Muitos registros agora fazem parte do livro lançado                               em  set/09 por Alessandro Fadelli, “CERCANDO                               L´ELDORADO NEL PAESE DEL CAFFÈ”, que pode ser                               adquirido através do site www.ominorosso.it/

Estabilizados no Brasil, os polcenigheses se dedicaram à agricultura, trabalho que praticavam antes de partir.
Poucos tiveram sorte e muitos viveram com dificuldades, mais ou menos como seria se tivessem permanecido na Itália.

As famílias de imigrantes se multiplicaram no decorrer de uma ou duas gerações, graças a uma elevada natalidade (não eram raros os casos de mais de seis filhos, uns nascidos na Itália e outros no Brasil), assim que certas famílias contam hoje com dezenas e dezenas de pessoas na América do Sul com sobrenome polcenighese. Bastam pesquisar nas listas telefônicas para ter-se uma idéia, espalhados por todo o Brasil, fora dos locais de chegada de seus antepassados.

Nota 4: Na Páscoa de 2003 conheci Maria Ivani Pallamin Galizia, filha de Nayr Ticianelli e Astor Pallamin, que tendo pesquisado, montou uma árvore genealógica dos descendentes brasileiros de Gio Maria Tizianel (João Maria) e Giovanna Zanolin (que em todos os documentos brasileiros está somente como Anna Zanolin), que na época contava com aproximadamente 850 pessoas (muitas já falecidas). Com certeza outros mais faleceram e outros nasceram desde então. Não se pode deixar de mencionar Elisângela Ticianelli Della Coletta, outra pessoa apaixonada pela história dos antepassados e que nos deu muitas dicas de onde localizar descendentes de Tizianel em Bariri (SP). E também Vera Pallamin, que com seu amigo Giovanni, ajudou a localizar o padre da paróquia de San Giacomo para obter a primeira das certidões italianas.

Alguns sites de ou com descendentes de Polcenigo (PN):
http://br.geocities.com/rogeriosandoli/familiascandolo.html#_ftn1
http://br.geocities.com/bravin_2000/familias/pagfamil/bravin.htm http://br.geocities.com/bravin_2000/familias/pagfamil/puppin.htm
http://www.estacaocapixaba.com.br/textos/imigracao/busatto/estudos...
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Entre os imigrantes para a América do Sul, alguns continuavam os envios de cartas aos parentes e amigos lá deixados, cartas escritas por outros, fato que muitos dos imigrantes eram analfabetos. Poucos atos de óbitos acontecidos no Brasil foram comunicados aos párocos das paróquias de Polcenigo.

Nota 5: Creio que os cartórios brasileiros não tinham por hábito notificar casamentos e óbitos à Itália.

Com o tempo as correspondências foram se escasseando, às vezes se tinham notícia verbal, de alguém que aqui vinha por um curto período e retornava à Itália. Alguns idosos recordam que os seus pais ou avôs mantinham contato com os parentes no Brasil, mas com o passar dos anos e das gerações este frágil fio se rompeu.

Um canal de ligação se reabriu neste último decênio (após anos 2000), quando muitos brasileiros de origem italiana, de terceira ou quarta geração, se faz vivo por carta ou com os párocos de Polcenigo, Coltura e San Giovanni para obter documentação de fonte religiosa sobre a sua longínqua origem italiana.

Em qualquer caso se faz uma pesquisa cultural das próprias raízes, mas na grande maioria o objetivo é demonstrar as origens italianas para obter a cidadania italiana, e, portanto transferir-se para procurar trabalho na Itália ou nos outros países da Europa, com o status de “cidadão comunitário”, e assim usufruir das vantagens que este comporta.

Nota 6: Muitos se utilizam da cidadania italiana para viajar com o passaporte italiano (vermelho), que além de mais seguro, tem alguns privilégios nos embarques/desembarques em determinados países. O passaporte brasileiro (verde) era o mais fácil de ser falsificado e por isto o mais valioso no mercado negro. O Brasil está começando a emitir passaportes mais seguros, que por enquanto não são todas as unidades da Polícia Federal que estão aptas a emiti-lo:
“O Novo Passaporte Comum do Brasileiro, que passou a ser emitido em 18/12/2006, tem a cor azul, de acordo com o padrão estabelecido pelo Mercosul, e conta com 16 novos itens de segurança, que torna sua falsificação praticamente impossível. As mudanças seguem as normas internacionais de segurança estabelecidas pela organização de Aviação Civil Internacional (ICAO), agência ligada às Nações Unidas”, conforme consta em http://www.dpf.gov.br/web/servicos/passaporte_novo.htm

Nota 7: A cidadania italiana é também muito utilizada por pessoas para concluir pós-graduação, especializações, viagens de negócios, entre outros, na União Européia.

O autor Alessandro Fadelli assim termina seu livro, baseado em vasta bibliografia:
“Após 120 anos, se verifica uma imigração ao contrário, devida às precárias condições econômicas atuais nos quais acontecem, sobretudo na América do Sul e no Brasil em particular, onde poucos privilegiados vivem com grande riqueza às costas de tantos pobres ou paupérrimos. Exatamente como sucedia na Itália e em Polcenigo no último quarto de 1800, quando partiram os avôs daqueles que agora tentam reentrarem no Eldorado italiano”.

Divulgando na Itália – set/2008: O historiador Alessandro Fadelli lançou o livro “CERCANDO L´ELDORADO NEL PAESE DEL CAFFÈ” - sobre a imigração dos polcenigheses para o Brasil, a partir de 1877.

O livro pode ser adquirido através do site: www.ominorosso.it


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